A HARPA DOS DEUSES

Representação de Dagda

Dentre inúmeros instrumentos associados ao sagrado e ao divino, a harpa, de longe, é a que mais se destaca. Culturalmente difundida junto à iconografia dos querubins, o simbolismo de sua música, que reproduz com extensa harmonia o louvor a Deus, fixou-se no inconsciente coletivo, de tal forma, que nos fez pensar que sua origem está intimamente ligada à mitologia cristã. Acreditar nisso, porém, é um grande equívoco.
Há, pelo menos, milhares de anos antes da era comum, a harpa já aparece nos contos célticos que foram passados de geração em geração, através da tradição oral, e que hoje compõem a mitologia de países como a Irlanda e a Escócia. Historicamente, “celta” é a designação étnica dada às várias tribos nativas espalhadas pelo Oeste da Europa, que compartilhavam da mesma família linguística e de algumas crenças e tradições.
Entre os Tuatha Dé Danann, por exemplo, o principal deus céltico paterno, protetor das tribos, ancestrais dos irlandeses, é Dagda. Dagda era comumente representado junto aos objetos mágicos que carregava consigo, entre eles: a clava, que lhe atribuía força e capacidade de reviver os mortos – sua acepção como temível guerreiro; o caldeirão, símbolo da fertilidade e da prosperidade, que fornecia alimento, sabedoria e vida em abundância àqueles que dele se saciavam – tornando Dagda o mais poderoso dos druidas; e a harpa Daurdabla, feita em carvalho vivo, que respondia aos comandos de seu harpista, mas, principalmente, aos comandos de seu criador – símbolo da habilidade artífice de Dagda, reverenciada pelo povo da deusa Danu e temida pelos seus inimigos.
A música da harpa do deus-druida executava feitos extraordinários, como conduzir exércitos em batalhas, manipular as emoções de seus rivais e controlar o início e o fim das estações do ano, através da ressonância de seus acordes. Durante as Batalhas de Mag Tuired, Dagda teve sua harpa roubada pelos Fomorianos, provocando um caos completo nas estações do ano. Posteriormente, com ajuda de seu irmão Ogma e de Lug, a Daurdabla foi recuperada e a harmonia e o equilíbrio foram reestabelecidos. Tais contos são narrados no Lebor Gabála Érenn, manuscritos reunidos em um livro, que traçam a história mitológica da Irlanda.
O fato é que a harpa sempre esteve associada à ideia de harmonia. Parece óbvio, afinal, o que nos conectaria ao divino, se não o som mais puro que pode ser produzido? Sua originalidade sonora e sua simplicidade, que, para alguns historiadores, teriam surgido a partir de arcos de caça, que produziam barulho ao resvalarem-se sobre as cordas, sempre foram representadas nas pinturas das paredes de templos, palácios e muros e encontradas em escrituras, túmulos e cavernas da antiguidade, desde a Mesopotâmia, na Ásia, ao Oeste do continente europeu e na África.
No Antigo Egito, por exemplo, as harpas eram objetos populares e eram muito utilizadas por sacerdotes e sacerdotisas em rituais místicos e solenes no palácio do Faraó. Tal instrumento era indispensável em festas religiosas, uma vez que a harpa era consagrada à deusa Hator, Senhora da música e dos festivais. Suas sacerdotisas, reunidas nos templos, estudavam seus mistérios, cantavam, dançavam e tocavam harpa e outros instrumentos de percussão, buscando exaltar a alegria, a beleza, a fertilidade, o equilíbrio e a harmonia da vida.
A fama da harpa também se deu na Grécia Antiga. Foi com o toque de sua lira (um tipo de harpa de menor porte), que o mitológico poeta Orfeu, conseguiu adentrar ao mundo inferior e emocionar Hades e Perséfone a ponto de convencê-los a devolver sua amada Eurídice ao mundo dos vivos, mesmo que o final de sua história não tenha sido tão feliz.
Era na Grécia e em Roma, também, que um dos maiores cultos utilizava a harpa com a intenção de incentivar a calma e celebrar os bons pensamentos e a elevação espiritual: o culto musical dedicado ao deus Apolo. Apolo é considerado uma das principais divindades greco-romanas, possuindo inúmeros atributos e sendo símbolo de inspiração profética e artística. Regente do sol, da ordem, da cura e do equilíbrio, Apolo foi descrito na Ilíada, de Homero, como o patrono da música e sua figura era frequentemente representada junto a instrumentos de percussão, como a cítara, a harpa e, principalmente, a lira. Seus devotos acreditavam que a música ritualística era capaz de curar doenças e de purificar o espírito.
A relação entre os antigos e a música era muito intrínseca. Etimologicamente, a própria palavra “música” deriva da palavra grega “musa”, que representa as entidades que inspiravam as criações artísticas e científicas. Porém, a herança dos gregos antigos deixada na música romana perdeu força com o passar do tempo, devido ao crescimento do cristianismo e da associação pagã que a Igreja da idade média fazia com as práticas musicais gregas.
Embora essas perseguições tenham sido feitas, a harpa, por algum motivo, seja pelo seu extenso histórico simbológico que a tornou sinônimo de instrumento ligado ao divino, ou pelo fato de ter passado por inúmeras culturas e de sempre ter mantido seu significado positivo, visando a leveza, a purificação e a elevação da alma através de sua música, também foi incorporada pela mitologia cristã, sendo citada na Bíblia e representada iconograficamente em vitrais e pinturas sagradas do medievo em diante. Cecília de Roma, por exemplo, uma das santas católicas mais veneradas pela Igreja e a que possui mais capelas dedicadas em seu nome na Europa, também pode ser vista tocando uma harpa nas suas representações. Seu mito tornou-a padroeira de todos os músicos.
A harpa toca, portanto, o som da humanidade, independente da crença e do povo. Benditas sejam as divindades que podem ouvi-la.

Colaborador: Enrico Kreusch Mariano
Bruxo, oraculista e pesquisador
Formado em Literatura pela Universidade Estadual de Londrina

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