Exposição Tesouros dos nossos ancestrais

Há cerca de 120 anos o explorador alemão Leo Frobenius conquistara a façanha de ser o primeiro europeu a chegar com vida até a cidade de Ilê Ifé e estabelecer contato com o povo. Seus relatos emocionados não chamam mais atenção do que sua sanha por uma coisa: as obras de arte produzidas em Ifé. Frobenius foi responsável por mostrar ao mundo ocidental a qualidade e primazia daquilo que para os iorubas eram objetos simbólicos do cotidiano, e para Frobenius um tesouro. Tal foi sua audácia que o explorador e seus comparsas saquearam Ifé, fugiram e venderam as peças, hoje espalhas pelos principais museus da

Europa. Não satisfeito, Frobenius fez questão de publicar artigos afirmando eu tais objetos de bronze, madeira e outros não poderiam ter sido feitos por aquele povo “de cor”, negando a autenticidade das obras e a capacidade intelectual de produção artística da civilização ioruba.
Este breve relato sobre a espoliação intelectual e material sob julgo do colonialismo europeu no território da Nigéria pode nos despertar o fervor de raiva e o desejo imediato de reparação. Imagine o europeu além de roubar, acusa os iorubas de falsificarem a propriedade intelecutal das peças! Mas não é com olhar revoltado eu este artigo foi escrito. Na contramão do eu seria uma reação natural de revolta, é possível pensar que Frobenius por erro e etnocentrismo, tenha preparado um caminho frutífero para o mundo ocidental despertar interesse ao que chamamos amplamente de arte africana. A Ori

Olokun, peça saqueada no fim do século XIX, compõe hoje uma sala com dezenas de outros objetos no principal museu da Inglaterra (British Museum), e é considerada a peça mais valiosa de arte. A arte africana tem, por caminhos muito duvidosos, ganho um destaque simbólico, cultural, econômico entre aqueles que antes consideravam “arte primitiva”. O que talvez o explorador não soubesse é que as peças saqueadas não representavam toda produção material, na realidade, estavam longe de representar a totalidade dos artefatos produzidos pelos artesãos iorubás especialistas em bronze, ferro madeira e vidro.
É isso que demonstra com grandeza a exposição recém lançada: “Tesouros dos nossos ancestrais”. Composta por peças de arte que fazem parte da Coleção Imperial do Ooni de Ifé a exibição inédita foi inaugurada em grande estilo na cidade de Lagos (Nigéria), no Consulado Geral do Brasil, no último dia 7 de setembro. Na ocasião de comemoração do dia da celebração da Independência do Brasil, celebrou-se com pompa a influência ioruba na cultura brasileira. Mas por que exibir a coleção iorubá no território brasileiro?
Do toque do agogô ao cheiro do Dendê, o Brasil revela sua face ioruba através dos séculos. Na maior avenida de entretenimento do mundo, quando milhares de pessoas entoam : “Não mexe comigo eu sou a menina de Oya”, cientes ou não, Oya é aquela que atravessou o oceano dentro dos navios negreiros com seus filhos, das terra iorubás até aportar no Brasil e aqui fazer morada. Para o rei de Ifé, que visitou o país pela primeira vez em junho de 2018: “O Brasil é a maior diáspora ioruba do mundo. Em nenhum outro país pude sentir a paixão pela nossa cultura, a reverência aos nossos orixás, como senti no Brasil. Os filhos de Oduduwa no Brasil tem feito um grande trabalho de manter a cultura nos nossos antepassados viva”. A partir deste encontro entre o sentinela do trono de Oduduwa e os afro brasileiros, o rei expressou o desejo de fortalecer os laços com a diáspora, e estabeleceu no Brasil o Instituto Casa Herança de Oduduwa, com este intuito.
A exposição ‘Tesouros dos nossos ancestrais’ chegará ao Brasil em 2020 e propõe uma narrativa histórica centrada na voz dos sujeitos criadores e proprietários das esculturas: o povo ioruba. Diferente das narrativas propostas por Frobenius que afirmava convictamente que tais obras não poderiam ter sido moldadas por mãos negras e ainda postulava que pertenciam a cidade perdida de Atlântida ou fora roubadas dos gregos. Ao exibir a Coleção de Arte Imperial destaca-se a agência e gerencia do povo ioruba ao contar seu passado honrar seus ancestrais e criar simbolismos a partir de seu cotidiano.
Propositor, patrono e principal entusiasta, Ooni de Ifé enxerga através da exposição a união dos afro descendentes e africano na descoberta, reafirmação e reconhecimento de uma história de brilhantismo artísticos e intelectual, como o domínio de técnicas inovadoras em sua época. A exposição é uma forma majestosa de compartilhar a visão de mundo ioruba através de esculturas em madeira, barro, vidro, bronze e ouro feitas entre os séculos XIII e século XX.
A exibição dessas peças exclusivas, que estavam ocultadas aos olhos humanos dento do Palácio de Ifé, é uma maneira de retomar o fio da história, rompendo com a visão eurocêntrica de Leo Frobenious e seus discípulos, aproximando um verdadeiro “Tesouros dos nossos ancestrais” dos filhos e filhas de Oduduwa espalhados pela terra.

Colaboradora: Carolina Maíra Morais
Mestre em Ciências: Carolina Maíra Morais
Mestre em história
Adida Cultural de Sua Majestade Imperial Ooni de Ifé
@carolinamaira
@casaherancadeoduduwa
herancadeoduduwa@gmailcom

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