Quando Olubojô desafia Iku

Nesse Odu conta a história de um homem chamado Olubojô, que trabalhava ajudando as pessoas com cura e ele usava muitos elementos para ajuda-las, tais como folhas, raízes, cascas de árvores e muitos outros. Ele cuidava das pessoas enfermas na cidade em que vivia e em um determinado dia, como já era de costume, bateram à porta na casa dele e quando Olubojô abriu a porta avistou uma menininha chorando e pedindo que ele ajudasse a mãe dela e o levou até a casa onde estava sua mãe. Quando Olubojô entrou na casa e avistou a mãe da criança, que já estava morta e com sinais de que a morte já tinha acontecido há algum tempo, pois o corpo estava “duro” e totalmente frio. Olubojô então falou para a pobre menina que nada mais ele poderia fazer pela sua mãe.
A menininha entrou em desespero e implorou em lágrimas que Olubojô fizesse algo pela sua mãe. Diante do sofrimento e desespero da menina, ele fechou os olhos e se concentrou em todo seu saber e quando abriu seus olhos a mulher estava de pé, viva, bem na sua frente.
Olubojô voltou para casa muito atordoado e contou para sua esposa o ocorrido e ela logo tentou acalmar Olubojô dizendo: “Na verdade ela não deveria estar morta e sim desmaiada e despertou”. Enquanto eles ainda estavam conversando alguém bateu à sua porta. Era um rapaz que estava muito nervoso e falou que precisava muito da ajuda de Olubojô pois seu pai havia morrido.
Ele então falou ao rapaz que não poderia ajudar a quem já morreu, pois só sabia ajudar as pessoas que estavam doentes, mas ainda vivas. O rapaz continuou a insistir com Olubojô, pois soube que ele tinha ressuscitado uma mulher. E depois de muita insistência, ele conseguiu levar Olubojô até a casa dele, onde encontrou o cadáver com todos os parentes à sua volta chorando e todos pediram o Olubojô que o ressuscitasse. Então, ele repetiu o mesmo ato porque não sabia o que fazer e novamente fechou os olhos e pensou em algumas coisas. Nessa hora o homem ressuscitou e o que deixou de ser uma dúvida passou a ser uma certeza: Olubojô ressuscitava os mortos!
Daquele dia em diante, todas as pessoas procuravam Olubojô para ressuscitar os seus entes queridos. Quando ele passava pela rua, todos queriam abraça-lo, dar presentes, pedir sua benção, pois quem não gostaria de ser amigo de quem ressuscita as pessoas?

Cajado de Iku (Morte)

Ao passar do tempo, a fama de Olubojô só crescia e após ficar famoso porque todos batiam na porta de Olubojô pedindo ajuda para ressuscitar os mortos, isso já tinha virado uma rotina.
Até que um dia bateram à sua porta e quando foi atender, para sua surpresa, era Iku, a morte. Quando ele viu Iku, logo a reconheceu e gelou. Perguntou para Iku: “Chegou a minha hora?”; e Iku respondeu: “Não. Não chegou a sua hora, mas não quero mais você atuando em minha área de trabalho. Você pode ajudar e curar as pessoas, mas ressuscita-las você não pode, estamos entendidos?”. Olubojô respondeu: “Sim, estamos entendidos.” E fechou a porta. A mulher de Olubojô percebeu que seu marido estava pálido e que algo havia acontecido.
“O que houve?” Ela perguntou e Olubojô respondeu, ainda com voz trêmula: “Eu vi Iku e ela estava aqui na nossa porta”. E a mulher, com uma voz assustada, perguntou: “Chegou a minha hora?” E o marido a consolou: “Calma, ela disse que só veio me avisar para que eu não entre mais na área dela e respondi que não mais iria ressuscitar as pessoas.” A esposa também achou melhor ele acatar a ordem de Iku.
E novamente bateram na porta e Olubojô achou que era Iku novamente, mas ao abrir era uma mulher que gritava e implorava por ajuda, pois o seu filho tinha morrido e ela não sabia viver mais sem ele. Olubojô contou para a mulher que Iku o tinha proibido de ressuscitar pessoas e se manteve firme que não mais faria, mas a mulher começou a elogiar Olubojô dizendo que ele era melhor que Iku e que ela estava com inveja dele. Ela repetia o tempo todo que Olubojô era o mais poderoso, que tinha sido agraciado e que Iku não sabia fazer o que ele fazia; e Olubojô diante de tantos elogios foi até a casa da mulher e ressuscitou o filho dela.
Olubojô retornou para sua casa e logo depois bateram novamente em sua porta e ao abrir se deparou com Iku, que perguntou: “O que foi que eu conversei com você? Você se esqueceu do meu aviso?” E Olubojô respondeu que não tinha esquecido, mas que a pessoa tinha lhe pedido com tanto carinho que ele não teve como negar. Iku rispidamente pergunta a Olubojô se ele não iria cumprir o trato com ela e ele disse que não. Tomada pela ira, Iku perguntou se Olubojô não sabia do que ela era capaz de fazer, e Olubojô perguntou a Iku: “Se eu não cumprir o nosso trato o que você fará comigo? Me matar? Se me matar eu ressuscito.” Iku esbravejou, virou as costas e foi embora, mas antes falou que ele iria conhece-la.
Olubojô continuou a repetir o mesmo ato, ressuscitando as pessoas, quebrando o seu trato com Iku. Os dias se passaram e Olubojô esqueceu as ameaças de Iku, até que um dia uma menininha bateu na porta de sua casa e quando a viu chorando disse: “Vamos rápido, quem morreu? Seja rápida porque tenho muita coisa para fazer, muita gente para ressuscitar, não é só você que bate a minha porta, diga logo o que aconteceu.” A menininha mal conseguia falar, só disse a palavra mãe e Olubojô, que tinha pressa, foi andando na frente, na direção que a menina apontou.
Porém, essa menina era Iku disfarçada e quando ele virou as costas Iku o tocou com o cajado da morte e Olubojô caiu duro na hora. Olubojô conseguiu voltar do mundo dos mortos, mas voltou sem o corpo e se tornou o primeiro Baba Egun, a forma ancestral de cultuar os antepassados. A menininha que apareceu por último era Iku e estava com o cajado chamado Okumon, o cajado que Iku carrega. Assim como foi uma menininha que iniciou a história de Olubojô, que o fez ressuscitar os mortos, também foi uma menininha que o levou à morte, mas ele voltou para esse lado e desde então ele dança conosco nas cerimônias que festejamos e invocamos os nossos antepassados, mas não mais com seu corpo.

Colaborador: Babalawo Sandro Fatorerá

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *