Kaia Aziri Yemonja

Duas teorias explicam a formação da Terra como a conhecemos hoje. A primeira, científica, é a Evolucionista, que nos coloca em um cenário de 12 bilhões de anos atrás. Toda a matéria que existe no universo se originou de uma grande explosão (Big Bang). A Terra teria sido formada há acerca de 4,5 bilhões de anos, como resultado de poeira e gases espaciais que sobraram da formação do Sol. No começo, tudo estava em estado de fusão. O tempo, entre outros fatores, fez com que uma parte ficasse seca e separada da porção de água.
A segunda teoria é a Criacionista, pela qual Deus teria criado tudo em seis dias, entre 6 mil e 10 mil anos atrás. As formações biológicas ocorreram após o dilúvio, que destruiu tudo, exceto os que estavam na Noé, tais como sua família e os casais de animais.
Com base na Teoria Evolutiva nós pautamos nossa linha de pensamento. Para os cientistas, na grande bola de fogo não havia vida. Nossos ancestrais africanos enxergaram vida no fenômeno. As mudanças de temperatura — do fogo ao resfriamento — a eliminação dos gases, o vapor d’água, atmosfera, as precipitações, os oceanos, seres aquáticos, plantas, bactérias, algas, animais invertebrados e vertebrados; e tudo mais que existe na crosta terrestre surgiu na água.

Ela é a grande mãe.
A senhora de todas as cabeças!

Essa compreensão, que não é só mística — mas hoje se sabe que tem amparo na ciência —, é base do arcabouço que sustenta a visão de mundo dos povos africanos. Entre os que sobreviveram à violência da diáspora negra e preservaram sua língua, hábitos, sistemas sociais, econômicos e mitos; essa cosmovisão decorre da biogênese que contempla um corpo biomítico.
O Ser oriundo de materiais orgânicos, da lama, também chegou à diáspora com esses povos. As relações físico-químicas entre terra água foram as precursoras dos seres. Quando esse entendimento é encarado como mito, ele embasa a visão do Cristianismo de que homem veio do barro.
Esse ciclo é contínuo, do qual fazem parte a vida e a morte — o retorno da massa do corpo biomítico à terra (a origem). Ou, ainda, o atravessar o grande rio, que leva o corpo biomítico ao plano mítico.
A sabedoria dos antepassados se torna mais relevante ao constatarmos que eles souberam reunir as diversas hipóteses e construir um arcabouço sagrado, convictos de que a preservação da vida se dá por meio dos elementos da natureza: água, lama, sopro do ar…
Mas a história é repleta de ciclos, nos quais os povos africanos foram vítimas das mais diferentes formas de agressões e opressão. No Brasil, um desses ciclos chegou a partir da diáspora negra. Homens, mulheres e crianças foram sequestrados e transformados em escravos no período da colonização. Nos últimos anos, essa violência, que nunca deixou de existir e sempre se expressou por meio do preconceito e do ataque frontal à vida, é retomada com o genocídio dos povos. Mata-se física, material e imaterialmente a tradição, sob o patrocínio de ocupantes dos espaços dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, incentivados pelo racismo e premiados pelo capital.
O capital observa os potenciais consumidores, acredita no aculturamento produzido a partir de agentes de educação e segurança, e aposta, principalmente, nos conceito limitante de religião. Ao capital interessa a perda de referências com os elementos da natureza provedores da vida. Para ele, o importante é usar os recursos naturais para elevar os lucros e reforçar sua capacidade de poder político e econômico. Para alcançar esse objetivo, o capital não tem limites — prevalece o jogo do vale tudo.
Nesse cenário inóspito, surge a necessidade de o povo reforçar seus conceitos de tradição e cultura; rever seus hábitos, tendo como farol luminoso a ancestralidade, com toda a sua sabedoria e tecnologias. Seja em 1º de janeiro, seja em 2 de fevereiro, seja em quaisquer outras datas, onde existir água o legado ancestral deve orientar a forma de saudar Kaia, Aziri, Yemanjá. Sem água não há vida. E para que haja vida em abundância, a natureza precisa ser preservada. Exige o cuidar, como o da mãe com o filho.
Em 2017, vimos o Rio de Janeiro se dobrar e reconhecer uma mulher que sempre se disse filha de Yemanja. O Estado decretou luto oficial por Mãe Beata de Yemanjá. No momento em que escrevo este artigo, é aniversário dessa grandiosa mulher.
Todos somos filhos da água, de Kaia, Aziri, Yemanjá , divindades distintas, mas, na interpretação dos povo tradicionais de matriz africana, associadas à água.
Assim, somados todos esses sentimentos, o FONSANPOTMA, que se ocupa da alimentação, da segurança e da soberania alimentar, está convicto da enorme ameaça que paira sobre os povos tradicionais de matriz africana e originária do impacto do capital sobre todos os indivíduos; e lança a campanha pela decretação do feriado de 2 de fevereiro, em reconhecimento às águas de Kaia, Aziri e Yemanjá. Tradição alimenta, não violenta.
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Colaborador: Ofarere

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