Perseguidores e perseguidos, Duas faces da mesma moeda

Alvo da hostilidade primeiro dos judeus, de cuja religião se originaram, os cristãos encontram até hoje ambiente hostil, principalmente em regiões como o Oriente Médio, onde a intolerância aumenta na medida em que conflitos geopolíticos desencadeados e patrocinados pelas Nações dominantes avançam. Além disso, o cristianismo deste começo do século XXI, tem retroalimentado e cristalizado de forma violenta as cisões da Igreja Romana, cujo maior protagonismo é encarnado pela figura do padre alemão Martinho Lutero, que desencadeou a Reforma Protestante da Igreja Católica Romana em 1517. Daí nasceram as igrejas protestantes tradicionais – luteranas, adventistas, anglicanas, batistas, reformados, metodistas e pentecostais, e as atuais neopentecostais ou evangélicas, cada uma interpretando a Bíblia a seu modo.
Depois de serem rechaçados pelos judeus, os cristãos sofreram nas mãos do império romano, cujo retrato mais aterrador são as arenas onde eram jogados aos leões para diversão dos cidadãos romanos e demonstração do poder total de Roma sobre o mundo sob seu domínio. A perseguição romana começou no ano 64 d.C, com Nero. A crença ameaçava o poder do Império e teve seu período mais devastador e violento entre o ano 303, quando o imperador Diocleciano ordenou a destruição da igreja de Nicomédia (na atual Turquia), dos objetos de culto, das escrituras, a proibição dos cultos e o confisco de bens dos adeptos, ao ano 311, com a abdicação do imperador. No ano de 313, o imperador Constantino se converteu ao cristianismo e encerrou um ciclo de três séculos de perseguições aos seguidores da fé cristã. O cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano no ano 380 por ordem do imperador Teodósio I, que tomou a medida numa lei conhecida como Édito de Tessalônica, iniciando a história da Igreja Católica Apostólica Romana, que inverteu o movimento da roda persecutória nos séculos seguintes.
Em 391, todas as crenças pagãs passaram a ser perseguidas em todos os territórios sob o domínio romano. O ápice do barbarismo promovido pelas autoridades religiosas cristãs e a consolidação definitiva do poder dessa Igreja iria se dar nos séculos seguintes, a partir da Idade Média, que se inicia no século 5 (400 depois de Cristo). O Império Carolíngeo (séculos 8 a 9) e o feudalismo (principalmente séculos 8 a 11) proporcionaram espaço econômico e poder político para a Igreja Católica se constituir na principal instituição medieval, com verdadeiros ciclos de terror, como o período da Inquisição, entre os séculos 12 e 19, que atingiu também os cristãos, como os protestantes e ortodoxos, perseguiu e forçou à conversão milhares de judeus e muçulmanos, além de dizimar civilizações inteiras como os incas e maias, povos indígenas nas terras invadidas por espanhóis, portugueses, franceses e ingleses nas Américas, legitimar a escravidão de negros africanos com base na Bíblia, separando famílias e impedindo que professassem suas crenças.

Alá e o Deus Cristão

Inquisição

Foi durante a Inquisição da Igreja Católica que nasceu um dos mais antigos e perenes conflitos religiosos: 1.400 anos até o momento, de confrontos contínuos entre os adeptos do cristianismo e do islamismo. O islamismo, ou islã, foi fundado pelo mercador árabe Maomé (Muhammad, c.570-632) no início do século 7º da era cristã. Nasceu sob influências tanto do judaísmo quanto do cristianismo, mas ao mesmo tempo opôs-se firmemente a ambos, alegando ser a revelação final de Deus (Alá). O livro sagrado do islamismo, o Corão (Qur‘an), teria sido revelado pelo próprio Deus a Maomé, o último e maior dos profetas.
Desde o início o islamismo foi uma religião aguerrida e militante, marcada por intenso fervor missionário. Um conceito importante é o de jihad, ou seja, o esforço em prol da expansão do islã por todo o mundo. Esse esforço muitas vezes adquiriu a conotação de guerra “santa”, como aconteceu de maneira especial no primeiro século após a morte de Maomé, em 632. Movidos por um profundo zelo pela nova fé, os exércitos muçulmanos conquistaram sucessivamente a península da Arábia, a Síria, a Palestina, o Império Persa, o Egito e todo o norte da África. Nesse processo, o cristianismo foi enfraquecido ou aniquilado, de forma violenta, em muitas regiões onde havia sido extremamente próspero nos primeiros séculos. Lugares como Antioquia, Jerusalém, Alexandria e Cartago, onde viveram os pais da igreja Orígenes, Cipriano, Tertuliano e Agostinho, foram permanentemente perdidos pelos cristãos. Em 674, os muçulmanos lançaram os seus primeiros ataques contra Constantinopla, a grande capital cristã do Império Bizantino.
No ano 711, os mouros atravessaram o estreito de Gibraltar e invadiram a Península Ibérica, ocupando a maior parte do território espanhol. Em seguida, atravessaram os Pirineus e penetraram na França, mas foram finalmente derrotados por um exército cristão, no ano 732. No Oriente Médio, norte da África e na Península Ibérica, os sarracenos foram relativamente tolerantes com os cristãos e os judeus. Eles geralmente não eram forçados a se converterem ao islamismo, mas tinham de pagar um imposto caso não o fizessem. Em todas essas regiões, muitos acabaram aderindo à nova religião. Em diversas áreas que conquistaram, os seguidores de Maomé criaram grandes centros de civilização, como foi o caso de Bagdá, o Cairo e a Espanha. O Califado de Córdova foi marcado por notável prosperidade, destacando-se por sua belíssima arquitetura, seus elaborados arabescos, seus avanços nas ciências, literatura e filosofia.
A maior, mais prolongada e mais sangrenta confrontação entre cristãos e islamitas foram as famosas Cruzadas, que se estenderam por quase duzentos anos (1096-1291). A cristandade já havia começado a lutar contra os muçulmanos na Espanha, o que ficou conhecido como a Reconquista, intensificada a partir de 1002 com a extinção do califado de Córdova. Desenvolveu-se, assim, a partir da Península Ibérica, uma forma de catolicismo agressivo e militante, que haveria de estender-se para outras partes do continente. As cruzadas foram um fenômeno complexo cuja causa inicial foi a impossibilidade de acesso dos peregrinos cristãos aos lugares sagrados do cristianismo na Palestina. Por vários séculos, os árabes haviam permitido, salvo em breves intervalos, as peregrinações cristãs a Jerusalém, e estas haviam crescido continuamente. Todavia, a situação mudou quando os turcos seljúcidas, a partir de 1071, conquistaram boa parte da Ásia Menor e, em 1079, a cidade de Jerusalém, fazendo cessar as peregrinações. Com isso surgiu na Europa um clamor pela libertação da Terra Santa das mãos dos “infiéis”.
A primeira cruzada foi pregada pelo papa Urbano II, em Clermont, na França, em 1095, sob o lema “Deus vult” (Deus o quer). Depois de uma horrível carnificina contra os habitantes muçulmanos, judeus e cristãos de Jerusalém, os cruzados implantaram naquela cidade e região um reino cristão que não chegou a durar um século (1099-1187). A quarta cruzada foi particularmente desastrosa em seus efeitos, porque se voltou contra a grande e antiga cidade cristã de Constantinopla, que foi brutalmente saqueada em 1204. A oitava cruzada encerrou essa série de campanhas militares que trouxe alguns benefícios, como o maior intercâmbio entre o Oriente e o Ocidente e a introdução de inventos e novas ideias na Europa, mas teve efeitos adversos ainda mais profundos, aumentando o fosso entre as igrejas latina e grega e gerando enorme ressentimento dos muçulmanos contra o Ocidente cristão, ressentimento esse que persiste até os nossos dias.
A Inquisição da igreja católica durou 588 anos, deixando um rastro de milhões de pessoas torturadas, assassinadas, queimadas, decapitadas, enforcadas e empaladas (uma lança atravessava o corpo do anus à boca). Os motivos para tais penas iam desde condenar aqueles que praticavam religiões antigas (acusados de bruxaria e magia), a defensores de ideias proibidas como: dizer que o sol girava ao redor da Terra, que as estrelas são sóis e que o universo é infinito. Muitas denominações protestantes e evangélicas fizeram os mesmo. Seja nas guerras contra judeus e muçulmanos, seja na conversão forçada de índios e povos pagãos que praticavam e praticam cultos tradicionais ligados à natureza.
E, em pleno século XXI, conforme informações publicadas pelo jornal inglês The Guardian no ano passado, cerca de 200 milhões de cristãos em mais de 60, nas regiões norte da África e Ásia e principalmente no Oriente Médio, enfrentam algum grau de restrição, discriminação ou perseguição, resultando em violência extrema, genocídios e expulsões em massa, atingindo todas as chamadas minorias religiosas por facções islâmicas fundamentalistas e extremistas.

Colaboradora: Jornalista Mirela Maria

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