O ELO ENTRE A MORTE E A VIDA É O AMOR

Era noite quando foi constatado que seu estado era grave. Lhe deram três meses de vida. A partir de então, cada minuto era acariciado como se pule um espelho manchado, pausadamente com uma franela seca na mão. Ele levou a sério aquela sentença. Para o velho doente, três meses significavam três meses mesmo, sem direito a nenhum segundo a mais. Por que nos apegamos tanto à vida assim? Dizem que o amor conhece sua profundidade na hora da perda. O amor que agora nutria pela vida estava vinculado à uma folha de calendário na parede daquele hospital e uma pergunta inevitável caía sobre sua cabeça como as gotas de uma torneira enjambrada: o que será que tem do outro lado?…

“Penso, logo existo”

Disse para si mesmo certa vez o grande filósofo René Descartes. Quem nunca se viu perplexo diante do absurdo da existência? Diante do pensar-se respirando, vivendo, existindo? O que é a vida? Pergunta o poeta:

“E a vida, e a vida o que é? Diga lá, meu irmão! Ela é a batida de um coração, ela é uma doce ilusão… E a vida, ela é maravilha ou é sofrimento? Ela é alegria ou lamento? O que é? O que é, meu irmão?…”Para Heidegger, a vida em si carrega a morte como seu horizonte. Uma moeda de dois lados, poderíamos dizer assim. Seria possível, além de pensarmos a morte como destino da vida, pensarmos também a vida como destino da morte?… Confesso que parece às vezes um pouco idiota para mim ficarmos elocubrando possibilidades infindas a respeito da vida pós-túmulo. Ninguém nunca voltou para relatar a curiosidade das curiosidades, mas convenhamos, negar a existência de algo mais do que a matéria que vemos e tocamos diariamente também soa tolo demais. A física quântica tem feito descobertas incríveis nos últimos anos! O que dizer do código de DNA humano? Que inteligência criadora teria interesse em estabelecer códigos de informações, por que e para que?

Merece palmas os esforços da religião em esmiuçar estas questões. Lutando contra o peso da morte, a religião sempre ergueu ainda que ofegante a bandeira da esperança pronunciada pelo Bispo de Roma, Jorge Bergoglio, o Francisco:
“A morte não é a última palavra!”
Aqui as religiões dão as mãos para dizerem em alto e bom som que a morte não significa o fim de tudo e que apesar da diferença de visão em cada uma delas, todas concordam que não nascemos para morrer, mas para renascermos todos os dias. Como bem afirmou Mahatma Gandhi que as religiões, fundamentalmente, não são mais que as diversas encarnações da única verdade. Sim, a morte não é o fim, diz o grande pastor Jonas Resende fazendo coro ao santo padre:
“A serpente pica a própria cauda, forma o anel e fecha o círculo. O fim é sempre um novo início. Mas há quem jure que aí também se encontra o eterno retorno ou o mistério eterno”. Talvez seja esta a tônica precisa e certeira do rito, a preparação do corpo gélido e inerte sobre a mesa central da capela para uma nova fase que virá. Para Antoine de Saint-Exupéry, são os ritos no tempo, o mesmo que o domicílio é no espaço. Nos acolhem, agasalham e favorecem à alma, descanso. Abrem as portas para aquelas e aqueles que insistem em ressignificar o luto transformando-o num verbo.

O tema da morte apresenta necessariamente a questão do sentido da vida. Por que vale a pena viver, por que vale a pena morrer e o que é sagrado? Somente o amor responde estas questões e nesse sentido, a sabedoria do bom senso nos convida a refletir sobre a vida da vida como a morte da morte.
Assim, o paciente de cuidados paliativos citado no começo deste ensaio nos faz lembrar da linda canção do jovem poeta Lenine:
“Enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora, vou na valsa. A vida é tão rara…”

Colaborador: Samuel de Pádua
Teólogo e pastor colaborador da Igreja Cristã de
Ipanema/Missão Vidigal. Integrante do Coro-oficina e Orquestra Vox In Via

Que nos traz a memória também os últimos momentos do Jesus nessa terra, quando no jardim do Getsêmani, agonizava a morte terrível e cruel que caminhava a galope em sua direção, orava ao Pai pelos seus discípulos pedindo para eles, vida eterna. Dizia o Cristo ali que a eternidade não era outra coisa senão o conhecimento de Deus, ou seja, o conhecimento do amor. Para Adélia Prado:
“O que a memória ama, fica eterno…”

Se há um elo que liga a morte com a vida e a vida com a morte, este só pode ser o amor. O primeiro caso promove o aperfeiçoamento necessário e o segundo, faz a vida valer realmente a pena!

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