A divisão entre cristãos em um país dividido

A Irlanda do Norte (também conhecida como Ulster) sofreu com três décadas de violência entre as comunidades católico-republicana e protestante-unionista que só terminou com o Acordo de Sexta-Feira Santa, assinado no dia 10 de abril de 1998.
O acordo encerrou um ciclo de violência que explodiu em 1968, quando a polícia reprimiu uma manifestação pacífica dos republicanos em Londonderry, a única cidade de maioria católica. A situação saiu de controle e novos protestos seguidos de confrontos passaram a acontecer de católicos contra a polícia e contra a comunidade protestante, esta última considerada pelos católicos como um bastião do Reino Unido.

São patrício
O padroeiro da Irlanda

Patrício nasceu com o nome de Maewyn no ano 387, em Bennhaven Taberniae, na Escócia. Ele era o filho de um oficial romano católico e aos 16 anos foi capturado por piratas irlandeses e vendido como escravo. Depois de várias tentativas, seis anos mais tarde ele fugiu e retornou à casa de sua família. Logo em seguida iniciou sua vida religiosa e retornou para a Irlanda, de onde tinha fugido, para pregar o Evangelho.
São Patrício converteu centenas de pessoas e muitas delas se tornaram monges. Para explicar como a Santíssima Trindade era três e um ao mesmo tempo, ele utilizava o trevo de três folhas e por isso tem papel importante na cultura Irlandesa. Foi também incentivador do sacramento da Confissão tal como conhecemos hoje, visto que antes o mesmo era realizado de forma pública. Um século mais tarde, essa prática se propagou para o restante da Europa e as Confissões feitas em público, diante de todos na igreja ou mesmo em praça pública, passaram a ser feitas individualmente num reservado, o confessionário.
São Patrício é tradicionalmente associado com a preservação das leis da Irlanda, ele é creditado pela introdução do alfabeto romano entre os irlandeses, permitindo aos monges a preservação da literatura católico-irlandesa.
Assim, os irlandeses, um povo de origem celta e que praticava seus próprios rituais pagãos, em pouco tempo estava convertido ao cristianismo, sendo que após a queda do Império Romano, o cristianismo manteve-se mais forte na Irlanda (que nunca fez parte do Império Romano) do que na Inglaterra dominada pelos bárbaros germânicos.

A Irlanda no Reino Unido

A relação entre irlandeses e britânicos oscilava entre períodos de paz e pequenos conflitos até que no século XII o monarca inglês Henrique II tentou anexar a Irlanda à Inglaterra, iniciando uma série de conflitos. No século XVI, os ingleses, pelo seu rei Henrique VIII, romperam com a Igreja Católica e fundaram sua versão protestante de religião, a Anglicana, cujo rei também seria o chefe da nova igreja.
Os irlandeses resistiram até o século XVI ao assédio, quando foram anexados ao Reino e no século XVII milhares de britânicos (ingleses, escoceses e galeses) passaram a se transferir para lá. “O processo foi organizado para atrair colonos da Inglaterra, da Escócia e do País de Gales através de generosas ofertas de terras, com o objetivo de transplantar toda uma sociedade para a Irlanda”, diz o antropólogo John Darby, da Universidade de Notre Dame. Os recém-chegados eram, em sua maioria, protestantes, enquanto os irlandeses mantiveram-se leais à Igreja Católica. Assim, o mesmo território passou a ser ocupado por dois grupos hostis, com os católicos acreditando que suas terras haviam sido usurpadas e os protestantes temendo rebeliões. Entre as várias províncias da ilha, a de nome Ulster, ao norte, concentrou a maior parte dos imigrantes britânicos (protestantes).

Domingo sangrento, o dia que inocentes morreram

A partir do século XIX, essa região se industrializou e se urbanizou rápido, aumentando as diferenças econômicas em relação ao sul do país, ainda dependente da agricultura. Como as tensões continuavam, em 1920 o parlamento inglês criou duas regiões com autogoverno limitado na ilha: a Irlanda do Norte (ou Ulster), com predomínio dos protestantes, e os condados restantes formaram a Irlanda (ou Eire), com maioria católica. Dois anos depois, a soberania da Irlanda aumentou, abrindo caminho para que a parte sul da ilha se tornasse um país totalmente independente da Inglaterra. Mas os católicos que viviam na Irlanda do Norte – hoje 40% da população – continuaram insatisfeitos e se sentiram usurpados na condução de seu destino, pois não se viam como cidadãos do Reino Unido e sim como um povo conquistado que vive num país ocupado.
A maioria protestante da província britânica era unionista, ou seja, defendia a permanência da Irlanda do Norte como parte do Reino Unido, enquanto a minoria católica queria a reunificação com a República da Irlanda.
Em 1970, o Exército Provisório Republicano Irlandês (IRA), um grupo armado ligado à comunidade católica, inicia uma campanha de atentados contra os militares britânicos enviados para garantir o predomínio do Reino Unido naquela região. Como toda ação corresponde uma reação, no outro lado surgiram os grupos paramilitares protestantes, o que acaba por criar um muro que dividia as duas comunidades.
A tensão aumenta após a violenta repressão de uma manifestação dos católicos em 30 de janeiro de 1972, na já conflagrada cidade de Londonderry. O episódio passou para a história como “Domingo Sangrento” (“Bloody Sunday”) por causa dos 14 manifestantes mortos, vítimas de tiros de paraquedistas britânicos.
A guerra recrudesceu e as tensões aumentaram, com violentos atentados e ações do IRA e a subsequente repressão armada do exército britânico, enviado para apoiar os unionistas protestantes. Cerca de 3.500 pessoas morreram por conta deste conflito e um número bem maior de feridos e de pessoas que deixaram o país por causa da insegurança e da falta de perspectivas.
Em julho de 1997, quando o trabalhista Tony Blair se torna Primeiro-ministro e o IRA decreta um cessar-fogo, o Sinn Fein (partido político que representava os católicos e elementos ligados diretamente ao IRA) é convidado à mesa de negociações.
Após longas negociações, em 10 de abril de 1998 o Acordo de Sexta-Feira Santa é assinado entre Londres (capital do Reino Unido), Dublin (capital da República da Irlanda), os partidos políticos norte-irlandeses e o IRA.
Pelo acordo de paz, a Irlanda do Norte recuperou sua autonomia, com um governo de coalizão entre protestantes e católicos, mas sem se unir à República da Irlanda, ficando num meio-termo entre a reunificação irlandesa e a autonomia frente aos britânicos.
Apenas quatro meses depois da assinatura do acordo, um grupo dissidente do IRA, o IRA Autêntico, cometeu o maior massacre do conflito ao detonar uma bomba em um mercado na cidade norte-irlandesa de Omagh, no qual 29 pessoas morreram na ação, incluindo mulheres e crianças. Porém, o atentado não derrubou o acordo de paz e os norte-irlandeses expressaram sua repulsa ao ataque e reforçaram o acordo, até porque estavam cansados da violência e não viam mais sentido numa guerra fratricida.

Colaborador: Dr. Roberval Barcellos

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